Um Capitel com História Oculta
Salvaguardas arqueológicas realizadas na moderna Moza, localidade situada imediatamente ao oeste de Jerusalém, revelaram um artefato notável em 2025: um capitel de pedra calcária ornamentado com menorás de oito braços gravadas em cada um de seus lados. A descoberta, feita pela Autoridade de Antigüidades de Israel (IAA), coloca um enigma desafiador aos pesquisadores: como um símbolo intrínseco à tradição judaica terminou sendo reutilizado em uma edificação bizantina construída por descendentes de soldados romanos?
O capitel foi escavado in situ em um contexto estratigráfico que remonta aos séculos VI ou VII da era comum. Seu achado em contexto secundário — ou seja, reutilizado em uma função arquitetônica distinta de sua função original — oferece uma janela peculiar sobre os processos de transformação cultural e material que ocorreram nas regiões de Judeia após o domínio romano.
Características e Técnica de Execução
A peça, esculpida em calcário local, mede aproximadamente [dimensões não especificadas nas fontes consultadas] e exibe uma composição arquitetônica singular. Na seção superior do capitel, encontram-se quatro menorás de oito braços, uma esculpida em cada face do bloco. Abaixo delas, oito folhas estilizadas foram entalhadas lado a lado, circundando a base da peça em um padrão decorativo contínuo.
Segundo Orit Peleg-Barkat, arqueóloga vinculada à Universidade Hebraica de Jerusalém, o artefato apresenta características arquitetônicas anômalas quando comparado aos capitéis coríntios convencionais que se tornaram predominantes em toda a região do Levante entre o fim do Período do Segundo Templo e a época bizantina. "Embora o capitel tenha sido executado com perícia, observam-se indícios de que foi produzido por um artesão menos familiarizado com as convenções arquitetônicas vigentes em estruturas públicas urbanas," comenta Peleg-Barkat. "O mais significativo é que a seção superior — tradicionalmente reservada a motivos florais — em vez disso apresenta o que se assemelha inequivocamente a menorás de oito braços."
A análise estilística aponta para uma origem em período anterior ao da construção bizantina em que foi descoberto. Os pesquisadores da IAA argumentam que o capitel foi primariamente concebido como elemento arquitetônico em estruturas do período romano-helenístico, possivelmente datáveis do século II ao IV da era comum.
A Presença de Menorás em Edificações Religiosas Antigas
A menorá, candelabro de sete ou oito braços que se originou no culto do Templo Judaico em Jerusalém, disseminou-se como símbolo identitário em comunidades judaicas ao longo dos séculos de ocupação romana. Capitéis decorados com menorás foram identificados em diversos sítios arqueológicos de importância, especialmente em sinagogasexcavadas em Cafarnaum (na Galiléia) e Cesareia (na costa do Mediterrâneo). Essas descobertas documentam o uso sistemático da menorá como elemento decorativo em ambientes de culto judaico durante a Antiguidade Tardia.
A presença de menorás em contextos arquitetônicos, particularmente em capitéis de colunas, serviu como marcador visual de identidade religiosa e étnica. Tal prática arqueológica reflete a importância do símbolo não apenas como objeto sagrado, mas como expressão de afiliação comunitária entre populações judaicas dispersas nas províncias romanas.
O Enigma da Reutilização: De Onde Veio o Capitel?
O contexto estratigráfico donde foi extraído o capitel — uma edificação do período bizantino — apresenta uma questão historiográfica intrigante. Moza, nos períodos romano e bizantino, não ofereceu qualquer evidência material de ocupação judaica permanente. Não foram localizados restos de sinagoga, mikvaot (banhos rituais) ou artefatos que pudessem indicar uma comunidade judaica residente. Pelo contrário, a evidência arqueológica sugere que Moza foi colonizada por veteranos da exército romano — possivelmente soldados desmobilizados após conflitos em Judeia.
Essa composição demográfica, em particular após as campanhas militares que marcaram os séculos I e II da era comum, contradiz radicalmente a presença de um capitel com menorás no sítio. Os conflitos entre autoridades romanas e populações judaicas, incluindo a Grande Revolta Judaica (66-70 EC) e a Revolta de Bar-Kokhba (132-135 EC), resultaram em destruição massiva de estruturas, deslocamento populacional e redistribuição de recursos materiais entre assentamentos.
Yuval Baruch, vice-diretor da Autoridade de Antigüidades de Israel, oferece uma interpretação plausível: "É razoável presumir que este capitel foi transportado de um sítio destruído em outro local, sendo reutilizado meramente como material de construção funcional, em uso secundário, na estrutura bizantina de Moza." Essa hipótese alinha-se com práticas arqueologicamente documentadas de reutilização de pedras aparelhadas em períodos subsequentes, especialmente após destruições sistemáticas.
Ciclos de Destruição e Reutilização na Antiguidade Tardia
A reutilização de elementos arquitetônicos entre períodos constitui fenômeno bem documentado na arqueologia do Levante antigo. Após eventos de destruição — guerras, terremotos, conflitos étnicos e religiosos — comunidades que se estabeleciam posteriormente frequentemente incorporavam blocos de pedra aparelhados de estruturas ruinosas anteriores, particularmente quando tais blocos apresentavam dimensões e qualidade de trabalho adequadas para novas construções.
A prática não implicava necessariamente apropriação ideológica dos símbolos contidos nas peças reutilizadas. No caso do capitel de Moza, é provável que seus ocupantes bizantinos e anteriormente romanos — muitos deles militares estrangeiros com fraca ou nenhuma conexão à tradição judaica local — simplesmente aproveitassem a solidez e a trabalhabilidade da pedra, indiferentes ao significado religioso do símbolo gravado.
Implicações para a História de Judeia
O achado de Moza fornece evidência material para narrativas históricas conhecidas por fontes textuais: a dispersão de populações judaicas, a destruição de estruturas comunitárias, a reconfiguração demográfica de assentamentos pós-revolta. A viagem do capitel — de uma sinagoga ou contexto judaico desconhecido até Moza — encapsula séculos de transformações políticas, militares e sociais que redefiniram a geografia humana de Judeia.
Adicionalmente, o capitel documenta a sofisticação técnica de artesãos judaicos do período romano, capazes de produzir artefatos decorativos em estruturas arquitetônicas de qualidade. A observação de Peleg-Barkat sobre as características estilísticas distintas do capitel sugere que, embora habilidosamente executado, pode ter sido produzido fora dos principais centros urbanos de produção — talvez em contextos regionais ou secundários — ampliando assim nossa compreensão sobre a distribuição de expertise técnica nas comunidades judaicas romanas.
Escavações futuras em Moza e regiões adjacentes poderão contribuir para refinar a proveniência do capitel e aprofundar o conhecimento sobre os ciclos de ocupação, destruição e reconstrução que marcaram Judeia entre os séculos II e VII da era comum.
Fonte: Biblical Archaeology Society